
Inland Empire é um dos filmes mais sensacionais que existe na história do cinema. O que Orson Welles conseguiu em Cidadão Kane - criar a linguagem cinematográfica - é repetido por David Lynch, no sentido oposto, o da desconstrução absoluta desta linguagem. Para compreender totalmente Inland Empire, seria necessário nunca ter assistido outro filme, ou melhor, não estar acostumado ao cinema tradicional. O autor não quebra apenas com a linha temporal, como já fez anteriormente e como outros diretores já fizeram, a exemplo de Quentin Tarantino, mas quebra com qualquer conceito de identidade, racionalidade e consciência. Mas não é apenas isso que torna o filme fantástico. É principalmente toda universo de emoções, sentimentos, sensações e sonhos que o filme consegue adentrar, sem para isso ter a lógica da razão. Você pode não entender a história, mas é impossível não senti-la. E, na sua intuição, uma vozinha vai dizer: "isso faz sentido", embora sua razão te diga: "não entendi nada".
Novamente, Lynch mergulha no universo cinematográfico - que tanto gosta de abordar - seja para quebrar a linguagem comum à esse universo, seja para usá-lo como metalinguagem. A personagem principal (se é que o filme tem uma) começa como uma atriz(Laura Dern), que faz o que toda atriz faz: interpreta papéis. Só que, em algum momento da narrativa, essa personagem se confunde e não sabe mais separar atriz X personagem. Isso fica bem claro quando ela diz: "Droga, isso é uma fala do meu script". E pior: ela nos confude e nos faz transitar dentro e fora de sua cabeça, por uma série de personagens misturados entre si e entre sonho e realidade. Lynch genialmente faz a atriz se perder, para que o telespectador se perca com ela. Só esse fato entre si já é bastante interessante, mas o melhor está por vir.
Não é apenas Laura Dern e nós que ficamos perdidos. Surge um terceiro elemento, outra mulher, que não possui nome definido, aparece apenas como "Garota Perdida". Essa "Garota Perdida" está assistindo televisão, assistindo exatamente o que nós estamos assistindo: a confusão de personagens de Laura Dern. E tão confusos quanto nós diante do filme, "Garota Perdida" se mostra da mesma forma. Em alguns momentos, ela e Laura Dern se confudem, e ela se transporta para televisão assumindo o papel dos personagens de Laura Dern, de acordo com o que ela se identifica. E não é isso que fazemos o tempo todo em filmes? Nos colocar no lugar dos personagens? Não seria o cinema uma forma de transpor a identidade, tanto como telespectador, quanto como ator?
Mas as possibilidades não se esgotam por aí. Estaria realmente a "Garota Perdida" assistindo ao filme e se identificando com ele apenas, ou alterando de acordo com suas divagações e lembranças? Como uma mente cansada e sonolenta que senta diante da TV e começa a viajar mixando as imagens com seus pensamentos?
Por esses motivos e muitos outros não citados, - pois o filme tem três horas e minha intenção não é escrever um compêndio sobre ele - como a trilha sonora, a fotografia e as atuações - Inland Empire é um filme que vale a pena ser visto e se possível revisto. Mesmo que seja para não gostar, mas apenas reconhecer que um outro cinema é possível.
Um comentário:
David Lynch n me tem como público-alvo, tenho certeza. Eu nunca entendo nada dos filmes dele, a n ser q vc esteja do meu lado dando pausa a cada 2min e explicando tudo. E mesmo assim, eu ainda dou várias boiadas, né? hauhauhuhah!
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