segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

El Cantante


Esse fim de semana foi repleto de filmes lights e programinhas caseiros, tive a chance de rever alguns filmes já antes vistos, e muitas comédias repetitivas...
O ponto mais interessante desses filmes foi me fazer lembrar como pode ser divertido ver aqueles filmes que não trazem nada mais do que algumas risadas e aquela sensação de divertimento quando sobem os créditos. Por isso não poderia deixar de recomendá-los para aqueles momentos em que não se quer pensar, que o único objetivo é relaxar e se divertir um pouquinho.
Revi "O Virgem de 40 anos", que traz uma visão caricatural não apenas do virgem, como também do universo masculino e da puberdade. Os personagens são exagerados no ponto certo, sem cenas que forçam episódios pseudo-engraçados e tem uma graça que consegue arrancar algumas boas risadas.

Outro filme que revi foi "Meninas Malvadas" que explora também as caricaturas da High School, mostrando o lado cruel das Pop stars colegiais. É outro filme que tira o foco "casalzinho feliz" já tanto explorado nos filmes da sessão da tarde e consegue fazer com que você enxergue a tragédia nas coisas que parecem mais banais. É um filme que vale a pena quando não se busca a profundidade da existência humana.

O terceiro filme que vi não foi um besteirol, mas entra naquele rol de filmes biográficos de músicos que se rendem às drogas e vêem suas vidas desestruturadas em todas as esferas. O nome do filme é "El Cantante", com Marc Anthony e Jennifer Lopez. O filme retrata a vida de Hectro Lavoe, um cantor de salva porto-riquenho que leva a salsa ao EUA e se torna um ícone. O filme tem uma fotografia muito bem feita e não permite que o filme caia simplesmente naquele drama que envolvem os filmes com músicos e droga. O filme mostra aspectos da cultura latina, e Jennifer Lopez consegue mostrar que não está ali apenas por ser uma "latina-movie star". A trilha sonosra é contagiante e o filme não traz uma imagem de vítima de Hector, deixando com que pensemos por nós mesmos, sem nos guiar a uma postura de piedade ou revolta pelos atos do protagonista.

Dos três filmes, "El cantante" é uma boa pedida pra se ouvir uma música num dia de Midnight margueria e também pra saber um pouquinho mais de Lavoe, que foi um dos grandes responsáveis pela expansão da salsa em todo mundo.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A duquesa

Ontem assisti o filme A Duquesa, com Keira Knightley, Ralph Fiennes e alguns muitos anônimos. A vida da duquesa tem aspectos similares à vida de Maria Antonieta. Já a estética do filme não tem nada a ver.
A Duquesa é mais clássico, mais épico, mais tradicional. Não traz nenhuma ruptura de linguagem, nem nada que já não tenha sido visto. Não é um filme inovador em nenhum aspecto.
O enredo trata da biografia da duquesa de Devonshire, que foi considerada bastante moderna para época. É exatamente nisto que o filme peca. Essa inovação pregada não passa de alguns ataques histéricos e algumas falas dramáticas. Ao contrário de Sophia Coppola, que em Maria Antonieta, fez questão de não limitar a atitude inovadora da rainha aos diálogos, mas transpôs isso para trilha sonora, estrutura, figurino, etc.
A Duquesa não chega a ser um filme ruim ou desagradável. Apenas falta um pouco de personalidade. Além disto, não podemos ver nenhuma importância dela; o filme não mostra atos históricos, ou grandiosos, ou que nos faça refletir. Resumindo, é um filme que começa no nada e termina em lugar nenhum.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Quando foi?

Há muito não passo por aqui com uma postagem nova, ou algo interessante pra contar, é essa monotonia cotidiana que me a leva a questionar: Quando foi que nos tornamos tão ordinários?
Quando foi exatamente que deixamos de lado o entusiasmo típico da juventude pra nos rendermos ao trabalho, às responsabilidades, às contas, ao dormir cedo, ao não beber em dia de semana, e tantas outras coisas que tornam nossas vidas cada vez menos coloridas? Não que seja necessário beber diariamente, faltar trabalho e dormir às 3 horas da manhã, mas o que me persegue é a falta de opções quando essas coisas deixam der ser plausíveis.
Não ter novidades virou rotina, prever os acontecimentos do dia se tornou "mamão com açúcar", fazer as mesmas coisas, encontrar as mesmas pessoas, bater aquele papinho, naquele mesmo lugar, naquele mesmo horário...
Quando foi que de repente isso passou a nos bastar? O que me intriga é que essa não é uma vida da qual desgosto, ou da qual pretendo me livrar, muito pelo contrário. Gosto das responsabilidades, de ter coisas a fazer naqueles determinados horários, de saber o que farei quando chegar em casa... O que me intriga é perceber que de repente as coisas perdem a necessidade de serem grandiosas pra nos agradar, e ao mesmo tempo me pergunto se essa é uma tendência contínua. Estamos condenados a nos contentar, cada vez mais, com menos?
Será que é disso que nossos pais são feitos? Será que ter mais namorado(a), sair pra jantar regularmente, curtir uma noitada com os amigos se tornará, para nós, extravagâncias?
Prefiro acreditar que não, que o tempo apenas tornará meus programas mais interessantes, e minha rotina mais cheia de complexidade, mas no fundo há sempre aquela coisinha meio chata chamada razão que deixa o gostinho de ilusão na boca e nos faz, de vez em quando, pensar que o futuro não passa apenas de trabalho, contas, filhos e dever de casa.
Não sei se sou apenas eu, mas a estabilidade dos meus dias me faz pensar que talvez minha juventude tenha feito as malas e me deixado na companhia da idade adulta. Não sei se isso é bom ou ruim, se é assim que as coisas são, ou se essas idéias são apenas coisas estúpidas que eventualmente pensamos. Ou se talvez a rotina tape nossos olhos e não deixe que percebamos essas pequenas mudanças que nos tornam cada vez mais parecidos. Acredito que não terei essas respostas, mas não me atormento por não tê-las, mas alguém pode me responder só: quando foi mesmo que isso aconteceu? [Tava distraída e não vi...]

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A Culpa é Deles

Enquanto não derem um posicionamento, não vou mais liberar nenhum orçamento. Não adianta. E mesmo que peçam uma exceção, mesmo que digam que é a última vez. Dessa vez, não caio mais nessa.
PF acordou no aconchego do lar faltando três minutos para quinze pras cinco. Nem cedo, nem tarde, pensou, enquanto virou na cama, duas vezes pro lado direito e três vezes para o lado esquerdo, procurando coragem para tomar banho. Não encontrou coragem em parte alguma, o que o levou a desistir de procurar e levantar da cama sem coragem nenhuma mesmo.
Grande coisa. Era o que ele fazia todos os dias.
Enquanto isso, no lustre do castelo, sua esposa Marilena, que parecia muitíssimo com aquela Lucelena do Unibanco, mimava seu pequeno filho, o pequeno Flávio Horácio. Pedia para o filho comer o prato todo, e prometia algumas centenas de chicletes, que não eram nada demais comparado com os milhões de chocolates também prometidos.
Lentamente, PF tentava passar sabonete fazendo o menor esforço possível, ou seja, sentado no chão do chuveiro. O tempo passava, Marilena empurrava comida goela abaixo, dando uma certa razão às bruxas que devoram crianças. Um pensamento continuo lhe vinha a cabeça: e se pegasse a faca que usava pacientemente e diariamente para cortar a carne do filho, que só sabia comer de colher, e fizesse um pequeno furo no filho? Só um corte de leve para testar a reação do seu querido filho, que esperneava sem querer comer? Tomou coragem e inseriu a ponta da faca no braço do seu filho de forma rápida e cirúrgica. A criança ficou um segundo quieta. Olhou pro braço, e ficou imóvel e silencioso, perplexo e surpreso. A verdade é que ficou chocado. O menino ficou CHO-CA-DO! E a mãe gostou da imobilidade silenciosa do filho ou gostou da sensação proporcionada pelo furo. Quem sabe até gostou de ambos, quando resolveu investir mais e mais facadas no amado filho, primeiramente em lugares desimportantes, como uma perna, uma orelha e indo finalmente ao que interessa: lá pela trigésima facada, acertou a cabeça do menino, que desfaleceu. O pai nada percebeu na hora, por três motivos:

1- O barulho do banho;
2- A gritaria do filho ser algo rotineiro;
3- Tinha acabado de dar 18hs e a rádio entoava os agudas da Ave Maria.

Bendita sois vois entre as mulheres.
Bendito é o fruto do vosso ventre.
Amém.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Nunca te olharei por dentro

Ele já andava pelas ruas da cidade com aquele ar que nos lembrava um padre em 1839. Não parecia legítimo, nem era sofisticado, mas transmitia uma certa lucidez que nos deixava impossibilitados de não pensar na austeridade de José Saramago. E enquanto fazia seu caminho, seguia passo por perna, compondo uma trilha que senão sonora, poderia ao menos nos remeter aos musicais de antigamente - uma trilha de tijolos talvez amarelos.
Se as vezes não arrastava uma perna, outras arrastava, não parecendo um completo deficiente, um aleijadinho, mas ao menos uma prostituta manca que sobrevivera à Rússia de Dostoiévsky e ao Moulin Rouge de Lautrec. Sim, parece que alguma sobreviveu. Não chegava a ser egoísta, mas tinha um narcisismo à la Querelle, que nos levava aos marinheiros de Brest, aos dragões de Quest e os cowboys do Oeste, e nos fazia questionar se o impulso sexual seria mesmo uma opção. Orientado para não amar, influenciava jedis de uma galáxia distante, e trazia para perto toda fantasia que George, não Lucas, poderia criar. Viva São Jorge.
Influenciado por Caetano, decidiu que sempre as coisas eram ou não, e não aceitava o meio termo. Não, para ele a virtude não estava no meio, nem nas frases bíblicas que outrora o teriam exterminado. Para essas coisas, apenas reservava um tiro, uma única bala que nos soaria como a voz sexy de um ator troglodita que se despede da vítima, em espanhol. Como o tempo passa e o mundo muda, passou mais uma vez a perna, ora arrastada, ora não, e passou também o momento do ator, que agora homem político, podia interpretar palhaços no circo político-americano-estadunidense-californiano. E por falar em dunidense, o clima de mistério que enevoava o rapaz, sem aproximá-lo de um Stephen King, paradoxalmente poderia superar os surrealisticos filmes de Lynch e o seu cinema noir nonsense. E nisso, podiamos ver nele uma beleza decadente, boemia e cansada, que tinha a textura do veludo azul de Isabella Rossellini.
Uma coisa não iremos negar, o rapaz tinha arte sem ser artista, dispensando as definições que tanto ecoam, sobre arte e anti-arte proclamadas por Umberto. Arte essa facilmente explicada pelo geneticismo de Mendel ou pelo evolucionismo de Darwin, ou pela reencarnação de Kardec. Não importa de onde, porque assim a arte veio e de qualquer forma se manterá, o rapaz poderia até ser filho de uma guitarrista com um bailarino, já que o contrário ficaria muito clichê, e a arte com clichê acaba virando publicidade.
Não buscava se aventurar nos psiquismos de Freud, nem onirísmos de Jung, nem ceticismos de Hume. Todos os ismos eram demasiado ilimitados para quem buscava se limitar apenas ao andarilho de Nietzsche, cercado por bandos de musas, celebrando os mistérios da alvorada.
E ainda neste caminho, passou por lugares que imitavam os bares do Rio Vermelho, sedentos de toda falsa baianidade, não de João Gilberto, mas de Jorge, viva são jorge, amado por revelar uma Bahia baiana e Dorival, que já não cantado por Gal, repousa em silencioso acervo musical. Parou, proclamou sozinho em voz alta: Nunca te olharei por dentro, para não esquecer da incrível Blimunda e do soldado Baltazar, nos memoriais do convento, que agora são memórias suas.

Nunca te olharei por dentro.
E seguiu.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A vitória da incompetência

Falar de corrupção, desonestidade, lavagem de dinheiro e escândalos na política já não é novidade. Falar disto tudo no Partido dos Trabalhadores também já não é novidade. Mas dentro da crescente onda de semi-analfabetos eleitos, acho importante questionar o que leva o brasileiro a premir a incompetência no lugar do mérito.

O que sempre tomamos por votação política é a escolha de um representante. E neste sentido fica até mais compreensível escolher como seu representante alguém semelhante a você. Ideologicamente não sei, porque ideologia não existe mais. O que resta então? Uma semelhança cultural? Filosófica? Social? Desta forma talvez se justifique que, uma população extremamente mal instruída e com o nível de educação tão baixo, escolha como representante "O amigo do presidente". Amigo este que aparece claramente na televisão esculhambando com o presidente no momento de crise, e apoiando seu agora rival, João Henrique.

O que escolher quando restam dois candidatos coligados, brigando entre si, diante de um presidente que não se manifesta (nem poderia, tendo Geddel como ministro)? Podemos escolher, o que no Brasil também não é novidade, a política do menos pior. O menos ignorante. O menos despreparado. O menos incompetente. Isso, quando falo "podemos escolher", me refiro às pessoas que pensam. Não me refiro àqueles que vão ao largo de Dinha com números 13 tatuados no rosto (tal qual os fãs de Xuxa faziam), tomar cerveja em dia de eleição e transformar a política soteropolitana numa lavagem de beco.

Numa coisa Sérgio Bianchi tem razão. A alienação no sul vem pelo trabalho. Na Bahia, pela festa. A parada gay não discute o orgulho ao qual se propõe ter. As manisfestações políticas tampouco. E assim vamos levando, regados pela cerveja (pelo menos isso!) e pelos arrochas e axé-musics da vida. E aliás, não foi o candidato-amigo-do-presidente que lançou pouco antes da eleição, um jingle de arrocha, repetindo o 13 incansáveis vezes?

E quando me perguntam porque não voto no PT, as pessoas não esperam resposta para me julgar alienado. Ser anti-PT virou sinônimo de alienação. Pois bem, que os alienados da alegria do 13 me perdoem, mas fico do jeito que estou. Continuarei não premiando, apoiando ou elegendo a ignorância. Que ela vença, mas sem mim.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008





Inland Empire é um dos filmes mais sensacionais que existe na história do cinema. O que Orson Welles conseguiu em Cidadão Kane - criar a linguagem cinematográfica - é repetido por David Lynch, no sentido oposto, o da desconstrução absoluta desta linguagem. Para compreender totalmente Inland Empire, seria necessário nunca ter assistido outro filme, ou melhor, não estar acostumado ao cinema tradicional. O autor não quebra apenas com a linha temporal, como já fez anteriormente e como outros diretores já fizeram, a exemplo de Quentin Tarantino, mas quebra com qualquer conceito de identidade, racionalidade e consciência. Mas não é apenas isso que torna o filme fantástico. É principalmente toda universo de emoções, sentimentos, sensações e sonhos que o filme consegue adentrar, sem para isso ter a lógica da razão. Você pode não entender a história, mas é impossível não senti-la. E, na sua intuição, uma vozinha vai dizer: "isso faz sentido", embora sua razão te diga: "não entendi nada".


Novamente, Lynch mergulha no universo cinematográfico - que tanto gosta de abordar - seja para quebrar a linguagem comum à esse universo, seja para usá-lo como metalinguagem. A personagem principal (se é que o filme tem uma) começa como uma atriz(Laura Dern), que faz o que toda atriz faz: interpreta papéis. Só que, em algum momento da narrativa, essa personagem se confunde e não sabe mais separar atriz X personagem. Isso fica bem claro quando ela diz: "Droga, isso é uma fala do meu script". E pior: ela nos confude e nos faz transitar dentro e fora de sua cabeça, por uma série de personagens misturados entre si e entre sonho e realidade. Lynch genialmente faz a atriz se perder, para que o telespectador se perca com ela. Só esse fato entre si já é bastante interessante, mas o melhor está por vir.


Não é apenas Laura Dern e nós que ficamos perdidos. Surge um terceiro elemento, outra mulher, que não possui nome definido, aparece apenas como "Garota Perdida". Essa "Garota Perdida" está assistindo televisão, assistindo exatamente o que nós estamos assistindo: a confusão de personagens de Laura Dern. E tão confusos quanto nós diante do filme, "Garota Perdida" se mostra da mesma forma. Em alguns momentos, ela e Laura Dern se confudem, e ela se transporta para televisão assumindo o papel dos personagens de Laura Dern, de acordo com o que ela se identifica. E não é isso que fazemos o tempo todo em filmes? Nos colocar no lugar dos personagens? Não seria o cinema uma forma de transpor a identidade, tanto como telespectador, quanto como ator?


Mas as possibilidades não se esgotam por aí. Estaria realmente a "Garota Perdida" assistindo ao filme e se identificando com ele apenas, ou alterando de acordo com suas divagações e lembranças? Como uma mente cansada e sonolenta que senta diante da TV e começa a viajar mixando as imagens com seus pensamentos?

Por esses motivos e muitos outros não citados, - pois o filme tem três horas e minha intenção não é escrever um compêndio sobre ele - como a trilha sonora, a fotografia e as atuações - Inland Empire é um filme que vale a pena ser visto e se possível revisto. Mesmo que seja para não gostar, mas apenas reconhecer que um outro cinema é possível.